29/09/2008

IV Encontro Brasileiro da Cor: "O homem necessita da cor para viver"

Por Harlley Alvez

O arquiteto Le Corbusier dizia em meados da década de 30 que a cor é um elemento tão necessário quanto a água e o fogo. “O homem necessita da cor para viver”, defendia. Os participantes do IV Encontro Brasileiro da Cor, realizado no dia 18 de setembro, em São Paulo, viram que é muito provável que Le Corbusier tivesse razão.

O grande número de inscritos sinaliza que a cor vem despertando o interesse por parte de diferentes tipos de profissionais. Uma resposta à percepção que, seja usada de forma intuitiva, ou planejada, sensações e até comportamentos podem ser inibidos ou estimulados pela cor: “Ambientes desorganizados causam sensações incômodas. Com a cor é o mesmo. Se o conjunto de cores do ambiente não está em harmonia, a impressão de confusão é a mesma, principalmente em ambientes de longa permanência”, afirma o vice-presidente da Associação Pró-Cor do Brasil, o químico e psicólogo, Paulo Félix.

Felix, que foi um dos palestrantes do IV Encontro Brasileiro da Cor, acredita que a cor é assunto de pesquisa: “Se não é bem-pensada, a cor pode comprometer todo o ambiente. Até um produto que é sucesso em um país, pode não ser tão bem aceito em outro, em virtude de gostos pessoais ou até influências culturais e geográficas que se tem com uma cor, que sempre deve ser considerada do ponto de vista estratégico, pois a cor é formada com base na influência psicossocial, um fato determinante nas escolhas e nos comportamentos.”

“Penso que teoria e técnica devem caminhar juntas. Veja um caso de restauração de edifício. O profissional tem que analisar quais eram as cores originais. Se for uma estrutura histórica, então, deve-se comparar com os registros originais ou até medir a cor da superfície, para poder orientar a compra da tinta e visualizar o impacto que a intervenção terá na obra”, opina José Luis Caivano, conferencista do evento e professor da Faculdade de Arquitetura, Desenho e Urbanismo de Buenos Aires.

Caivano é o atual presidente da AIC – International Colour Association -, criada em Washington-EUA, a entidade congrega importantes associações de estudos sobre cores internacionais, e agora tem a Associação Pró-Cor entre seus associados.

Ele diz que há tempos os teóricos vêm pensando sobre o papel primordial da cor. ‘O próprio Le Corbusier, anos antes de declarar que a cor era fundamental disse que a forma precedia cor e que essa era um acessório. Pesquisou mais e acabou mudando de idéia”, conta Caivano”, que assina a palestra Cor e Arquitetura, apresentada no encontro.

 

O Neo Clássico e a cor na Arquitetura Clássica

O presidente da AIC destacou as características da arquitetura Grega do Período Clássico, marcada pelo uso de cores fortes e contrastantes (arquitetura policromática). Porém, as cores do Período Clássico se perderam no tempo devido ao declínio das civilizações do passado. Por isso, associa-se a arquitetura monocromática e cinzenta à decadência no passado.

Outros estudiosos já haviam mergulhado no campo de pesquisa de cores. Vitruvio, arquiteto e engenheiro romano que viveu no século I a.C., falava sobre a cor enquanto sensação e a cor pigmento. André Felibien (1619-1695) foi um dos primeiros a tratar sobre a mescla de cores. O autor John Rusken (1819-1900) defendia o uso das cores naturais dos materiais.

A discussão sobre ambientes monocromáticos ou policromáticos recomeça nos trabalhos do arquiteto Eugène Emannuel Viollet-le-Duc, que pesquisou a história da habitação humana no Egito e em Roma, e K Fridel Anter que detalhou as cores em afrescos em Pompéia.

“Muitos desses pesquisadores revolucionaram a idéia de espaço e uso de cores na arquitetura. Já no século XX, o arquiteto alemão Walter Gropius ( 1883 – 1969), fundador da escola Bauhaus , Gerrit Rietveld ( 1888 - 1964), arquiteto modernista neerlandês que levou a cor para o desenho de móveis e Bruno Taut (1880 – 1938), figuram entre os maiores destaques do movimento moderno”, acredita o professor Caivano. Seus modelos preferidos de boa arquitetura no Brasil?“Os modernistas”, afirma ele.

 

Amarelo-ovo-frito, verde-inglês, vermelho-chinês e azul bic

“Cor é alegria”, resume a designer de interiores Neza César, que adora dar nome às cores. A cor vedete em seus projetos é chamada por ela de vermelho-chinês, uma homenagem a cultura oriental.

Neza foi autora da palestra ‘A cor no design de interiores’. Ela diz que a escolha da cor requer empatia. “Você tem que se imaginar convivendo com ela. Se está com receio comece pelos detalhes, pinte ambientes menores, móveis pequenos e veja como você se sente com ela. Se não gostar, troque tudo!”, indica.

Mas se a idéia é pintar uma vez só, a primeira regra de Neza para decorar a casa é observar a vegetação. “Se inspire na natureza. Não tem como errar. Não há uma só planta que tenha cores desajustadas. A natureza é a grande mestra. Se lá fora as cores estão combinando, dentro de casa também vão estar.”

O equilíbrio entre o quente e o frio é a segunda regra. “Procure não trabalhar as paredes com não mais do que duas cores, uma quente e uma fria. O casamento de cores claras com cores escuras também dá certo. Num quarto azul claro, você pode mesclar uma parede com o azul bic, que é um azul bem forte, trazendo acessórios com cores similares. O azul é um clássico para quartos, mas há quem prefira cores quentes, que são as mais indicadas para dormir, nas técnicas de decoração indianas.”

Para Neza, os ambientes monocromáticos é que requerem maior cuidado. “O equilíbrio é a chave. Não é porque o cliente gosta daquele verde-inglês (escuro) que tudo no ambiente tem que ser nesse tom. Amarelo forte, vibrante, é ótimo para copas, mas imagina a cozinha inteira com aquele amarelo-ovo-frito?”

No entendimento da designer de interiores, as pessoas ainda têm um pouco de medo de usar as cores fortes, que são uma das características marcantes de seus projetos. “A maioria tem medo de enjoar da cor. Não é um problema tão grande. É só pintar, que é o jeito mais barato de renovar a casa. Por isso é tão importante que haja uma instituição que mostre como transportar as cores para dentro de casa.”

Exemplo disso, segundo Neza, está na cidade de São Paulo, que hoje não conta com o antigo montante de outdoors na paisagem. “Os edifícios ficaram mais à vista e isso motivou a pintura das fachadas, ressaltou a arquitetura da cidade, destacando as formas originais dos prédios”, constata a designer, participando do debate que lembrou o projeto Cidade Limpa, que regula o uso de material publicitário em São Paulo

O presidente do Conselho Técnico-Científico da Pró-Cor, o químico Marcos Quindici, acrescenta que o projeto Cidade Limpa também trouxe a cor como um ponto de identificação dos comércios em São Paulo. “Sem a publicidade, os donos de loja tiveram que ousar na cor das fachadas. O que é muito bom, pois incentiva o uso de cores fortes e encoraja para decorar os interiores em tons mais vibrantes.”

Profissionais de diferentes categorias participaram do IV Encontro Brasileiro da Cor. A artista plástica Adriana Vilar veio de Mairiporã, interior de São Paulo para acompanhar as palestras. “Gostei muito do contexto histórico apresentado pelo professor Caivano. É uma parte que a gente não está acostumada a ouvir. Na palestra do psicólogo Paulo Felix, chamou a atenção o número de formas que a cor tem para interagir e influenciar as pessoas. Já a Neza, trouxe idéias para aplicar as cores, que são vitais para mim, que trabalho com a tela e restauração de móveis.”

 

Comemorando uma nova fase, Pró-Cor traz parceria com entidades internacionais e incentivos aos profissionais do Brasil

Nesta nova fase, a Associação Pró-Cor do Brasil tem, entre seus objetivos e desafios, obter maior aproximação das entidades internacionais e um maior envolvimento dos profissionais brasileiros para participar, discutir, aprender e ensinar as diferentes rotinas que cercam todas as áreas envolvidas com a ciência da cores, explica Valéria Tavares, presidente da Pró-Cor.

Ao discursar no evento, a presidente disse que o Encontro Brasileiro da Cor visa divulgar, por meio de depoimentos de importantes personalidades ligadas ao mundo da cor, um ponto de referência onde se estabeleça um elo entre os pesquisadores, a indústria e o mercado, diminuindo a distância, no que se refere à cor, entre o setor acadêmico e o setor produtivo.

“Essa quarta edição foi um sucesso, e é um exemplo do empenho dos associados da entidade em mostrar que cor é um assunto importante. Nosso envolvimento com a AIC – International Colour Association – representa um marco histórico para a consolidação do uso e projeção internacional das pesquisas sobre cor no Brasil.”

Exemplo disso é que seguindo uma iniciativa da Associação Pró-Cor do Brasil, as entidades filiadas à AIC devem estudar a criação do Dia da Cor , para homenagear o envolvimento das cores na vida das pessoas. O tema de autoria do designer Nelson Bavaresco, membro do Conselho Técnico-Científico da Pró-Cor, provocou o interesse do presidente da AIC, José Luis Caivano, que agora pretende levar a idéia para outros países, para que cada entidade crie o seu dia da Cor, que no Brasil será no dia 21 de Setembro. A expectativa é que, no futuro, será possível até mesmo a criação do Dia Internacional da Cor.

Integrando os eventos paralelos da VI Feitintas, o IV Encontro Brasileiro da Cor foi realizado com apoio do Sitivesp, portal MundoCor e patrocínio da Luckscolor. Após o evento, os diretores da Associação Pró-Cor do Brasil receberam seus convidados no estande da entidade, que teve a decoração e projeto de cores assinados pela designer de interiores e paisagista Valéria Sicolin e também por Carla Martinho Villa, da Universo Tintas.

A avaliação de Marcos Quindici, presidente do Conselho Técnico-Científico, é de que a participação na feira é positiva: “Além da quantidade de inscritos nas palestras, também recebemos, no estande, um número muito grande de visitas de pessoas interessadas no trabalho da Associação.”

“Sem dúvida a cor vem despertando um interesse cada vez maior, por isso, para atender esse público, que, de fato, é ávido por mais conhecimento estamos planejando novas ações”, enfatiza Valéria Tavares. “Por isso, convidamos a todos os profissionais que se relacionam com o tema a participar da entidade.”

 

   
   

 

 

Os interessados em conhecer melhor a associação e/ou integrar-se a ela podem encaminhar e-mail para procor@procor.com.br.